quarta-feira, 5 de novembro de 2014

ADOLFO CAMINHA

BIOGRAFIA

Adolfo Ferreira Caminha nasceu no dia 29 de maio de 1867 em Aracati, no Ceará. Sua infância não foi muito tranquila, pois ficou órfão de mãe muito cedo, com apenas 10 anos, no ano de 1877, mesmo ano em que o Nordeste foi assolado pela seca. Após ficar órfão, foi com seus cinco irmãos para Fortaleza, onde teve seus primeiros estudos, e seis anos depois, em 1883, foi para o Rio, onde estudou na Escola Naval. Devido à instituição ser conservadora e monarquista, lá revelou seus primeiros sentimentos republicanos e abolicionistas, chegando ao extremo de, com apenas 17 anos, fazer um discurso na presença de D. Pedro II, declarando-se contra a escravidão e o império. Mesmo assim formou-se na Escola Naval no ano de 1885, como guarda-marinha.
Por volta de 1886 demonstra sua vocação de escritor através da publicação dos poemas “Vôos Incertos”. Em 16 de Dezembro de 1887 foi promovido a 2º tenente, mesmo ano em que publicou seu primeiro livro de contos. No ano seguinte pede transferência para Fortaleza, provavelmente não por acaso, pois sabia que o Ceará já havia libertado os escravos, realidade que agradava aos seus ideias. Vem a se demitir do seu cargo na marinha no ano de 1890.
Em 1891 funda, em Fortaleza, a revista moderna, e colabora para o Jornal do Norte. Em 1892, funda a "Padaria Espiritual", um movimento literário-político que acreditava na educação do povo para mudar o país, e publicava o jornal, "O Pão". No ano seguinte lança o romance “A Naturalista”, de cunho naturalista, criticando a vida urbana em Fortaleza, capital cearence. Colabora também na imprensa carionca, na Gazeta de Notícias e no Jornal do Comércio.
Adolfo Caminha foi um dos principais representantes do naturalismo no Brasil, e sua obra se caracterizava por ser densa e trágica, naturalmente não foi muito bem aceita na época. Em 1897, com apenas 30 anos, atormentado pelas dificuldades econômicas e debilitado pela tuberculose, o escritor vem a falecer. Deixa inacabados os romances: Ângelo e O Emigrado.



Por: Ana Paula de Araújo
Fonte: http://www.infoescola.com/biografias/adolfo-caminha/

terça-feira, 4 de novembro de 2014

ESCRAVIDÃO, HOMOSSEXUALISMO E MORALISMO VISTOS SOB A ÓTICA DIFERENCIADA DE UM NARRADOR NATURALISTA: ANÁLISE DE BOM-CRIOULO DE ADOLFO CAMINHA

INTRODUÇÃO


A narrativa de Bom-Crioulo, apesar de não ser a melhor obra naturalista brasileira, não deixa de ser uma boa narrativa. Adolfo Caminha aborda nela um tema um tanto polêmico para a sociedade da época: homossexualismo entre marinheiros. Bom-Crioulo se desenvolve em torno de um triângulo amoroso, diferente do tradicional composto por dois homens e uma mulher ou duas mulheres e um homem. Aqui o leitor se depara com Amaro visto como o ‘macho’, forte, viril, negro e Aleixo, a ‘fêmea’, com aparência feminina, frágil e com comportamento feminino. Eles se caracterizam como 
opostos. Tal relação cresce, por influência e pressão de Amaro, amadurece e começa a dar sinais de que vai apodrecer. O terceiro elemento desse triângulo se completa com Carolina, uma velha portuguesa de quarenta anos, dona de alguns cômodos no subúrbio do Rio de Janeiro, que vivia dos aluguéis e era amante de um açougueiro.
Após alugar o sobrado ao casal (Amaro e Aleixo), Carolina, cansada de ver Aleixo, carinhosamente chamado de Bonitinho, entregue ao bruto Amaro, decide conquistá-lo, tomá-lo para si. Dessa maneira, ao invés de se deixar conquistar, Carolina assume papel de homem conquistador. Aleixo gosta dela, pois ela lhe enche de mimos, diferente de Amaro que só estava lhe dando desgosto.
Por fim, Aleixo decide ficar com Carolina mesmo temendo que Amaro pudesse fazer 
alguma coisa. No entanto, essa relação dura pouco, pois Amaro, enciumado, cego por sua obsessão, por sua paixão sem limites, os descobre e mata Aleixo com as próprias mãos. Diante de uma história de paixão e tragédia, vamos nos ater a algumas ideias presentes na narrativa que se diferenciam das ideias da sociedade tradicional da época. Com isso, pretendemos compreender o que pode ter levado o narrador a criar uma narrativa em que alguns comportamentos diferem do tradicional.


Personagens

  • Amaro: ex-escravo, marinheiro e extremamente forte. Tem trinta anos no início da estória
  • Aleixo: jovem grumete de apenas 15 anos.
  • Carolina: portuguesa, ex-prostituta e dona de uma pensão.
  • Herculano: marinheiro desleixado e tímido.
  • Agostinho: guardião da proa. Especialista no trato com a chibata.
  • Sant'ana: Marinheiro gago, indisciplinado e mentiroso.

Fonte: http://www.fecilcam.br/nupem/anais_v_epct/PDF/linguistica_letras_artes/06_MAGIROSKI_FERNANDES.pdf




O ENREDO

O romance nos apresenta a história de Amaro (tratado por Bom-Crioulo) um escravo que fugiu de uma fazenda, cansado da vida que levava, em busca de condições melhores que, até certo ponto, foram encontradas na marinha:
A disciplina militar, com todos os seus excessos, não se comparava ao 
penoso trabalho na fazenda, ao regime do terrível tronco e do chicote. Havia 
muita diferença... ali ao menos, na fortaleza, ele tinha sua maca, seu 
travesseiro, sua roupa limpa e comia bem, a fartar, como qualquer 
pessoa[...] Para que melhor? (CAMINHA, 1998, p.22).
Contudo, após certo tempo de serviço, apareceu no navio um pequeno grumete, Aleixo, loiro, de olhos azuis, contando 15 anos, que abalou as estruturas de Amaro. Ambos começaram a relacionar-se, devido à pressão e insistência de Amaro e foram ‘desfrutar’ de tal ‘amizade’ em um sobrado no Rio de Janeiro, alugado por Dona Carolina, dona de uma pequena pensão e conhecida de Amaro há algum tempo. Como passar do tempo e as restrições da vida militar, as idas de Aleixo e Amaro ao sobrado se tornaram menos frequentes e os desencontros cada vez mais frequentes. Aproveitando-se disso, Carolina decide conquistar Aleixo que era muito diferente dos homens que estava acostumada a conviver e se relacionar.
Mais tarde, internado em um hospital após uma briga, Amaro fica sabendo de Aleixo e Carolina, se sente furioso, foge do hospital e comete um crime com as próprias mãos destrói a única causa boa de sua existência: Aleixo.

Fonte: http://www.fecilcam.br/nupem/anais_v_epct/PDF/linguistica_letras_artes/06_MAGIROSKI_FERNANDES.pdf

segunda-feira, 3 de novembro de 2014

ACEITAÇÃO VERSUS A CONDENAÇÃO DO HOMOSSEXUALISMO EM BOM-CRIOULO

Bom-Crioulo se passa em dois lugares: no mar, a bordo da corveta e em um sobradinho no subúrbio do Rio de Janeiro. Esses lugares são descritos minuciosamente, principalmente no que se refere aos aspectos negativos, pois "daí decorre a objetividade que o escritor procura manter durante toda sua narrativa, não idealizando a realidade, mas limitando-se a registrá-la. Na corveta a situação em que encontram os marinheiros é degradante: cansados após um dia de serviço, eles acabam dormindo em qualquer lugar, inclusive no chão úmido e sujo de um ambiente fétido e precário como o convés do navio:
A marinhagem, entorpecida pelo trabalho, caíra numa sonolência profunda, espalhada ali ao relento, numa desordem geral de ciganos que não escolhem terreno para repousar. Pouco lhe importavam o chão úmido, as correntes de ar, as constipações, o beribéri. Embaixo era o maior atravancamento. Macas de lona suspensas em varais de ferro, uma sobre as outras, encardidas como panos de cozinha (...). Imagine-se o porão de um navio mercante carregado de miséria. No intervalo das peças, na meia escuridão dos recôncados moviam-se corpos seminus, indistintos. Respirava-se um odor de cárcere, um cheiro acre de suor humano diluído em urina e alcatrão (CAMINHA, p.36).
Os marinheiros com quem Amaro convive se encontram na mesma situação do 
navio: em péssimas condições de higiene, que demonstram uma situação desagradável e 
persistente: “As unhas metiam náuseas, muito quilotadas de alcatrão, desleixadas mesmo. 
Figura triste essa, cujo aspecto deixava uma impressão desagradável e persistente.”( 
CAMINHA, p. 14)
Amaro, como qualquer outro personagem de uma obra naturalista, é influenciado
pelo meio em que vive por que:
O homem é visto como um animal condicionado por forças que determinam 
o seu comportamento. Por isso, as personagens dos romances naturalistas 
tem um comportamento que resulta da liberação dos instintos, sob 
determinadas condições do meio ambiente. Dessa maneira, compreendemos que convivendo em um meio desagradável, com marinheiros sujos, solitários, sem privacidade alguma, viajando durante logos períodos juntos pode ter favorecido o afloramento do homossexualismo em Bom-Crioulo e nos demais marinheiros. “Nunca experimentara semelhante coisa, nunca homem algum ou 
mulher produzira-lhe tão esquisita impressão, desde que se conhecia!” (CAMINHA, p.26)
Aleixo era filho de uma pobre família de pescadores de Santa Catarina, tinha 15 
anos, era loiro, frágil e querido por todos. Ao cruzar a vista com Aleixo, Amaro vê o 
adolescente com outros olhos e a partir disso começa a conquistá-lo, dando-lhe presentes e 
fazendo-lhe elogios, como um homem conquista uma mulher.
Em meio a essa conquista, a situação começa a se extrapolar, fazendo com que 
Amaro ora aceite, ora condene essa relação, “esse comércio grosseiro entre indivíduos do 
mesmo sexo.” (CAMINHA, p.40)
Por um lado Amaro é contra essa relação entre homens, pois a vê como um ato
imoral, que costuma ocorrer com freqüência a bordo do navio, sendo praticado por muitos
marinheiros que não se preocupam em esconder o fato:
[...] alguma coisa dentro de si revoltava-se contra semelhante imoralidade 
que os outros de categoria superior praticavam quase todas as noites ali 
mesmo sobre o convés... Não vivera tão bem sem isso? Então, que diabo! 
Não valia a pena sacrificar o grumete, uma criança..Quando sentisse “a 
necessidade”, aí estavam as mulheres de todas as nações, francesas, 
inglesas, espanholas...a escolher! (CAMINHA, p.30).
Mesmo se sentindo atraído por Aleixo, Amaro ainda se revolta contra esse tipo de 
relação, entre homens, mesmo que isso seja um fato recorrente no seu cotidiano e não 
havia motivos para ‘sacrificar’ Aleixo porque para satisfazer suas necessidades sexuais 
haviam as mulheres de diferentes nacionalidades.Mais adiante, Amaro assume outra posição, passando a aceitar o fato de sentir 
atração por Aleixo e começa a compreender fatos passados, antes ignorados, mas que 
agora faziam sentido: “Agora compreendia nitidamente que só no homem, no próprio 
homem ele podia encontrar aquilo que debalde procurara nas mulheres.” (CAMINHA, p. 40)
Compreendemos que após refletir sobre os fatos passados, Amaro aceita a situação: 
Aleixo o atrai como a mulher atrai o homem e, “É certo que ele não seria o primeiro a dar 
exemplo, caso o pequeno se resolvesse a consentir...” (CAMINHA, p.29)
Aqui fica claro que ele não repudia tal relação, ele simplesmente declara que tudo 
dependeria da aceitação da proposta por Aleixo, pois para ele o fato só dependeria disso.
O fato de o personagem Amaro aceitar e logo em seguida negar sua 
homossexualidade é compreensível, pois isso demonstra que sua sexualidade não estava 
bem definida apesar da idade “contava então cerca de trinta anos e trazia gola de 
marinheiro de segunda classe”. (CAMINHA, p. 25) 
Em alguns momentos não se incomodava com a opinião dos outros porque era
apenas suspeitas, ninguém sabia ao certo o que se passava com ele e Aleixo, não havia
provas que o recriminassem, porém ao falar no assunto ele se revoltava, pois alguns a
bordo do navio praticavam tal imoralidade e não se importavam com os demais. Mas
também é compreensível que essa transição nada mais é que um conflito interior em Amaro
que necessitava de uma solução que, no caso, foi a aceitação da sua homossexualidade.

Fonte: http://www.fecilcam.br/nupem/anais_v_epct/PDF/linguistica_letras_artes/06_MAGIROSKI_FERNANDES.pdf

domingo, 2 de novembro de 2014

CONSIDERAÇÕES FINAIS


Se levarmos em conta a data de sua publicação (1895), Bom-Crioulo tratou de um tema tanto quanto polêmico e pouco comum: o homossexualismo.Tal tema, pouco comum, principalmente na literatura européia, fez com que a obra fosse ignorada e criticada por alguns escritores da época.
Apesar de o individualismo prevalecer sobre o coletivo, característica incomum ao 
naturalismo, Bom-Crioulo não deixa de ser uma boa opção de leitura
Muitos escritores da época, além de Adolfo Caminha, ao se fixarem no individual, 
deixaram de lado as exatas dimensões do naturalismo caindo “inevitavelmente para o 
excepcional, para o isolado, para o externo, para o arbitrário.” (SODRÉ, 1969, p. 384)
Pode ser que seja por esse e outros motivos que o naturalismo brasileiro seja 
criticado por Sodré (1969, p. 384), por exemplo, que diz que os escritores ao tentarem transpor a vida para a arte, eles se fixavam em figuras anormais, criminosas, descomedidas, ébrias, o que prevalecia nessas obras era o individual e não o social. Compreendemos que Bom-Crioulo trata com especificidade Amaro enquanto que os demais personagens servem de plano de fundo para o romance em que o individualismo prevalece sobre o social, sobre o coletivo.
No que se refere às ideias/comportamentos antagônicos (tradicional X ficcional) analisados percebemos que em Bom-Crioulo, Adolfo Caminha além de apresentar comportamentos diferentes dos tidos como tradicionais, ele busca transmitir e montar uma história em que o personagem principal fosse inserido em um ambiente onde não tivesse problemas de discriminação racial e sexual, sendo aceito sem problemas, coisa que dificilmente seria possível fora da ficção se levarmos em consideração o tradicionalismo da sociedade da época.
E ao mesmo tempo, cria um ambiente diferente sim, porém não deixa de ressaltar as características naturalistas, tratando as personagens e registrando os acontecimentos com a frieza de um cientista que observa o fato e o registra sem deixar transparecer sua opinião sobre os mesmos. E assim foi Bom-Crioulo: uma narrativa excepcional, ousada, de temática moderna, apesar de ter se passado tantos anos após sua publicação.

Fonte: http://www.fecilcam.br/nupem/anais_v_epct/PDF/linguistica_letras_artes/06_MAGIROSKI_FERNANDES.pdf