A marinhagem, entorpecida pelo trabalho, caíra numa sonolência profunda, espalhada ali ao relento, numa desordem geral de ciganos que não escolhem terreno para repousar. Pouco lhe importavam o chão úmido, as correntes de ar, as constipações, o beribéri. Embaixo era o maior atravancamento. Macas de lona suspensas em varais de ferro, uma sobre as outras, encardidas como panos de cozinha (...). Imagine-se o porão de um navio mercante carregado de miséria. No intervalo das peças, na meia escuridão dos recôncados moviam-se corpos seminus, indistintos. Respirava-se um odor de cárcere, um cheiro acre de suor humano diluído em urina e alcatrão (CAMINHA, p.36).
Os marinheiros com quem Amaro convive se encontram na mesma situação do
navio: em péssimas condições de higiene, que demonstram uma situação desagradável e
persistente: “As unhas metiam náuseas, muito quilotadas de alcatrão, desleixadas mesmo.
Figura triste essa, cujo aspecto deixava uma impressão desagradável e persistente.”(
CAMINHA, p. 14)
Amaro, como qualquer outro personagem de uma obra naturalista, é influenciado
pelo meio em que vive por que:
O homem é visto como um animal condicionado por forças que determinam
o seu comportamento. Por isso, as personagens dos romances naturalistas
tem um comportamento que resulta da liberação dos instintos, sob
determinadas condições do meio ambiente. Dessa maneira, compreendemos que convivendo em um meio desagradável, com marinheiros sujos, solitários, sem privacidade alguma, viajando durante logos períodos juntos pode ter favorecido o afloramento do homossexualismo em Bom-Crioulo e nos demais marinheiros. “Nunca experimentara semelhante coisa, nunca homem algum ou
mulher produzira-lhe tão esquisita impressão, desde que se conhecia!” (CAMINHA, p.26)
Aleixo era filho de uma pobre família de pescadores de Santa Catarina, tinha 15
anos, era loiro, frágil e querido por todos. Ao cruzar a vista com Aleixo, Amaro vê o
adolescente com outros olhos e a partir disso começa a conquistá-lo, dando-lhe presentes e
fazendo-lhe elogios, como um homem conquista uma mulher.
Em meio a essa conquista, a situação começa a se extrapolar, fazendo com que
Amaro ora aceite, ora condene essa relação, “esse comércio grosseiro entre indivíduos do
mesmo sexo.” (CAMINHA, p.40)
Por um lado Amaro é contra essa relação entre homens, pois a vê como um ato
imoral, que costuma ocorrer com freqüência a bordo do navio, sendo praticado por muitos
marinheiros que não se preocupam em esconder o fato:
[...] alguma coisa dentro de si revoltava-se contra semelhante imoralidade
que os outros de categoria superior praticavam quase todas as noites ali
mesmo sobre o convés... Não vivera tão bem sem isso? Então, que diabo!
Não valia a pena sacrificar o grumete, uma criança..Quando sentisse “a
necessidade”, aí estavam as mulheres de todas as nações, francesas,
inglesas, espanholas...a escolher! (CAMINHA, p.30).
Mesmo se sentindo atraído por Aleixo, Amaro ainda se revolta contra esse tipo de
relação, entre homens, mesmo que isso seja um fato recorrente no seu cotidiano e não
havia motivos para ‘sacrificar’ Aleixo porque para satisfazer suas necessidades sexuais
haviam as mulheres de diferentes nacionalidades.Mais adiante, Amaro assume outra posição, passando a aceitar o fato de sentir
atração por Aleixo e começa a compreender fatos passados, antes ignorados, mas que
agora faziam sentido: “Agora compreendia nitidamente que só no homem, no próprio
homem ele podia encontrar aquilo que debalde procurara nas mulheres.” (CAMINHA, p. 40)
Compreendemos que após refletir sobre os fatos passados, Amaro aceita a situação:
Aleixo o atrai como a mulher atrai o homem e, “É certo que ele não seria o primeiro a dar
exemplo, caso o pequeno se resolvesse a consentir...” (CAMINHA, p.29)
Aqui fica claro que ele não repudia tal relação, ele simplesmente declara que tudo
dependeria da aceitação da proposta por Aleixo, pois para ele o fato só dependeria disso.
O fato de o personagem Amaro aceitar e logo em seguida negar sua
homossexualidade é compreensível, pois isso demonstra que sua sexualidade não estava
bem definida apesar da idade “contava então cerca de trinta anos e trazia gola de
marinheiro de segunda classe”. (CAMINHA, p. 25)
Em alguns momentos não se incomodava com a opinião dos outros porque era
apenas suspeitas, ninguém sabia ao certo o que se passava com ele e Aleixo, não havia
provas que o recriminassem, porém ao falar no assunto ele se revoltava, pois alguns a
bordo do navio praticavam tal imoralidade e não se importavam com os demais. Mas
também é compreensível que essa transição nada mais é que um conflito interior em Amaro
que necessitava de uma solução que, no caso, foi a aceitação da sua homossexualidade.
Fonte: http://www.fecilcam.br/nupem/anais_v_epct/PDF/linguistica_letras_artes/06_MAGIROSKI_FERNANDES.pdf
Nenhum comentário:
Postar um comentário