segunda-feira, 3 de novembro de 2014

ACEITAÇÃO VERSUS A CONDENAÇÃO DO HOMOSSEXUALISMO EM BOM-CRIOULO

Bom-Crioulo se passa em dois lugares: no mar, a bordo da corveta e em um sobradinho no subúrbio do Rio de Janeiro. Esses lugares são descritos minuciosamente, principalmente no que se refere aos aspectos negativos, pois "daí decorre a objetividade que o escritor procura manter durante toda sua narrativa, não idealizando a realidade, mas limitando-se a registrá-la. Na corveta a situação em que encontram os marinheiros é degradante: cansados após um dia de serviço, eles acabam dormindo em qualquer lugar, inclusive no chão úmido e sujo de um ambiente fétido e precário como o convés do navio:
A marinhagem, entorpecida pelo trabalho, caíra numa sonolência profunda, espalhada ali ao relento, numa desordem geral de ciganos que não escolhem terreno para repousar. Pouco lhe importavam o chão úmido, as correntes de ar, as constipações, o beribéri. Embaixo era o maior atravancamento. Macas de lona suspensas em varais de ferro, uma sobre as outras, encardidas como panos de cozinha (...). Imagine-se o porão de um navio mercante carregado de miséria. No intervalo das peças, na meia escuridão dos recôncados moviam-se corpos seminus, indistintos. Respirava-se um odor de cárcere, um cheiro acre de suor humano diluído em urina e alcatrão (CAMINHA, p.36).
Os marinheiros com quem Amaro convive se encontram na mesma situação do 
navio: em péssimas condições de higiene, que demonstram uma situação desagradável e 
persistente: “As unhas metiam náuseas, muito quilotadas de alcatrão, desleixadas mesmo. 
Figura triste essa, cujo aspecto deixava uma impressão desagradável e persistente.”( 
CAMINHA, p. 14)
Amaro, como qualquer outro personagem de uma obra naturalista, é influenciado
pelo meio em que vive por que:
O homem é visto como um animal condicionado por forças que determinam 
o seu comportamento. Por isso, as personagens dos romances naturalistas 
tem um comportamento que resulta da liberação dos instintos, sob 
determinadas condições do meio ambiente. Dessa maneira, compreendemos que convivendo em um meio desagradável, com marinheiros sujos, solitários, sem privacidade alguma, viajando durante logos períodos juntos pode ter favorecido o afloramento do homossexualismo em Bom-Crioulo e nos demais marinheiros. “Nunca experimentara semelhante coisa, nunca homem algum ou 
mulher produzira-lhe tão esquisita impressão, desde que se conhecia!” (CAMINHA, p.26)
Aleixo era filho de uma pobre família de pescadores de Santa Catarina, tinha 15 
anos, era loiro, frágil e querido por todos. Ao cruzar a vista com Aleixo, Amaro vê o 
adolescente com outros olhos e a partir disso começa a conquistá-lo, dando-lhe presentes e 
fazendo-lhe elogios, como um homem conquista uma mulher.
Em meio a essa conquista, a situação começa a se extrapolar, fazendo com que 
Amaro ora aceite, ora condene essa relação, “esse comércio grosseiro entre indivíduos do 
mesmo sexo.” (CAMINHA, p.40)
Por um lado Amaro é contra essa relação entre homens, pois a vê como um ato
imoral, que costuma ocorrer com freqüência a bordo do navio, sendo praticado por muitos
marinheiros que não se preocupam em esconder o fato:
[...] alguma coisa dentro de si revoltava-se contra semelhante imoralidade 
que os outros de categoria superior praticavam quase todas as noites ali 
mesmo sobre o convés... Não vivera tão bem sem isso? Então, que diabo! 
Não valia a pena sacrificar o grumete, uma criança..Quando sentisse “a 
necessidade”, aí estavam as mulheres de todas as nações, francesas, 
inglesas, espanholas...a escolher! (CAMINHA, p.30).
Mesmo se sentindo atraído por Aleixo, Amaro ainda se revolta contra esse tipo de 
relação, entre homens, mesmo que isso seja um fato recorrente no seu cotidiano e não 
havia motivos para ‘sacrificar’ Aleixo porque para satisfazer suas necessidades sexuais 
haviam as mulheres de diferentes nacionalidades.Mais adiante, Amaro assume outra posição, passando a aceitar o fato de sentir 
atração por Aleixo e começa a compreender fatos passados, antes ignorados, mas que 
agora faziam sentido: “Agora compreendia nitidamente que só no homem, no próprio 
homem ele podia encontrar aquilo que debalde procurara nas mulheres.” (CAMINHA, p. 40)
Compreendemos que após refletir sobre os fatos passados, Amaro aceita a situação: 
Aleixo o atrai como a mulher atrai o homem e, “É certo que ele não seria o primeiro a dar 
exemplo, caso o pequeno se resolvesse a consentir...” (CAMINHA, p.29)
Aqui fica claro que ele não repudia tal relação, ele simplesmente declara que tudo 
dependeria da aceitação da proposta por Aleixo, pois para ele o fato só dependeria disso.
O fato de o personagem Amaro aceitar e logo em seguida negar sua 
homossexualidade é compreensível, pois isso demonstra que sua sexualidade não estava 
bem definida apesar da idade “contava então cerca de trinta anos e trazia gola de 
marinheiro de segunda classe”. (CAMINHA, p. 25) 
Em alguns momentos não se incomodava com a opinião dos outros porque era
apenas suspeitas, ninguém sabia ao certo o que se passava com ele e Aleixo, não havia
provas que o recriminassem, porém ao falar no assunto ele se revoltava, pois alguns a
bordo do navio praticavam tal imoralidade e não se importavam com os demais. Mas
também é compreensível que essa transição nada mais é que um conflito interior em Amaro
que necessitava de uma solução que, no caso, foi a aceitação da sua homossexualidade.

Fonte: http://www.fecilcam.br/nupem/anais_v_epct/PDF/linguistica_letras_artes/06_MAGIROSKI_FERNANDES.pdf

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